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Os governadores e 2022


Por Adriano Oliveira*

O cientista político Fernando Abrúcio escreveu os Barões da Federação. Foi a sua dissertação de mestrado, a qual foi publicada em livro no ano de 1998. Abrúcio mostra a força dos governadores na política nacional e como é necessário que o presidente da República tenha constante diálogo com eles. Desde o governo Sarney, os presidentes da República mantêm interação com os governadores. Após a abertura democrática, governador sempre teve importância.

O presidente Bolsonaro quebrou a tradição. Para o atual mandatário da República, governador é mais uma peça a ser ignorada ou atacada. Apesar deste comportamento, são vários os chefes do Executivo estadual que tentam defender o presidente e insistir no diálogo com ele. As atitudes do presidente Bolsonaro sugerem que para ele, governador não tem importância.

Os governadores estão corretos ao enfrentarem o presidente Bolsonaro. Se o enfrentamento não ocorrer, a narrativa que predominará é a do presidente da República, qual seja: “Os governadores fecharam o comércio, não garantiram vacina para a população e o dinheiro enviado para a saúde sumiu”. Esta narrativa encontra respaldo na população. Se os governadores não cobrarem responsabilidade e atitude do presidente da República, a fama que conquistarão em parcela do eleitorado é de que são corruptos e incompetentes.

Ao enfrentar os governadores, o presidente Bolsonaro coloca os pretensos candidatos “bolsonaristas” aos governos estaduais na eleição de 2022 em situação complicada. Eles terão que explicar à população as razões que motivaram Jair Bolsonaro a negar as consequências da Covid-19 para a saúde pública e a economia. Nem todos os candidatos “bolsonaristas” aos governos estaduais receberão o apoio entusiasmado de Jair Bolsonaro. E os apoios serão assimétricos: o candidato terá que pedir votos para Bolsonaro. Mas Bolsonaro não tem a obrigação de pedir votos para ele.

O aumento da popularidade do governo Bolsonaro, algo que pode ocorrer, pois a sua impopularidade cresce, mas não tão rapidamente quanto às condições sanitária e econômica sugerem, tem o óbvio poder de atrair apoios para o presidente da República candidato à reeleição. A impopularidade gera efeito inverso. O enigma eleitoral para 2022 é: Qual será a popularidade do presidente Bolsonaro na vindoura eleição presidencial? Neste instante, a elaboração da resposta requer parcimônia.


Adriano Oliveira é Doutor em Ciência Política. Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Pernambuco.

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