Artigos

Artigos, Opinião

Egoísmo corporativista na fila de vacinação

Quem é prioridade? Para mim é a vida, preservar a vida é prioridade neste momento difícil provocado por um vírus que recodificou o nosso cotidiano. A vacinação para combater a covid-19 está ocorrendo em seu processo natural. Neste momento em um processo lento. Não pelo tempo, mas só pelo fato de não ter chegado, ainda, a nossa vez. O relógio aqui é atemporal e baseado somente em interesses corporativistas.

Campanhas de vacinação já são realizadas a décadas no Brasil, já existe estudo de como iniciar e como finalizar uma vacinação. Quem vem primeiro, quem vem depois. Essa ordem não é randômica, aleatória ou com base em interesses de grupos específicos. Mas é fincada na ciência e tão somente só.

Com a chegada da covid-19, ou como em qualquer outra doença, são feitas adaptações para o perfil da doença e grupos de riscos. Mas a espinha dorsal da ordem segue – mais ou menos – o mesmo enredo.

O curioso é o surto egoísta que surgiu com a chegada das poucas doses da vacina contra a covid-19. “Primeiro eu, segundo eu”, é como segue a toada para organizar a fila que é urgente para qualquer um, mas não tem para todo mundo. O deputado federal Josivaldo JP (Podemos), maranhense, tem brigado em Brasília para que “pastores, padres e membros eclesiásticos como prioridades na vacinação contra Covid-19”.

A proposta não tem fundamento, a contar que pode ser até benevolente com os (poucos) religiosos que têm provocado aglomerações ao professar sua fé. No caso, os pastores estariam imunes enquanto o rebanho de ovelhas todo em perigo. Todo dia surge uma nova reivindicação. Professores, médicos que não são da linha de frente, personais trainers. Agora, também recente, Quem também reivindica o direito de ser vacinado primeiro são os bancários agora ameaçam greve geral caso não sejam imunizados.

O brasileiro colocando a ciência de lado para atender seus próprios interesses. Nenhuma novidade.

Artigos

Gestão de risco de mercado na Petrobras

Por Rafael Baptista Palazzi

A atual política de preços da Petrobras prevê reajustes sem regularidade definida e guiados pelas oscilações do mercado internacional de petróleo. O recente aumento no preço dos combustíveis, a demanda organizada dos caminhoneiros e a interferência do presidente no controle da Petrobras chamaram a atenção mais uma vez para a forma como é feita gestão da política de preços da estatal.

Há diversas maneiras de se proteger dos choques do petróleo no mercado internacional sem necessariamente utilizar mecanismos de controle de preço. Estratégias de controle de preço são a renúncia fiscal, decisões da Petrobras ou fundo de estabilização que tem a função de conter grandes variações de preço. O governo se valeu dessas iniciativas entre 2011 a 2015. Entretanto, a proteção por meio de contratos futuros pode ser uma forma mais efetiva de mitigar os efeitos da volatilidade.

Participe do grupo fechado no WhatsApp

É importante destacar que há dois componentes que influenciam na formação do preço do combustível: a variação cambial do dólar norte americano e a variação do preço internacional do petróleo. Existe algum mecanismo para atenuar o efeito da volatilidade desses componentes que não seja através de decisões arbitrárias do governo? A resposta é sim, mas não é tão simples.

A saída ideal para evitar exposição as oscilações dos preços internacionais seria por meio de contratos futuros negociados nos principais mercados financeiros, como a bolsa de Chicago e Nova Iorque. Essa é uma estratégia bastante usual em setores expostos a variação de preço de mercado, por exemplo, empresas com passivo em dólar ou exportadoras de commodities. A pergunta que precisa ser feita é como a Petrobras se protege dessas oscilações? Como é feita a gestão de risco de mercado na estatal?

A Petrobras pode comprar ou vender uma quantidade futura de um produto a um preço pré-determinado. É uma operação que se assemelha à contratação de um seguro e que permite se proteger da volatilidade do mercado. No caso do petróleo, há diversos tipo de contratos possíveis, por exemplo, óleo cru (WTI) e heating oil (ambos comercializados na bolsa de Nova York), e a gasolina cotada no mercado de Chicago (RBOB) (comercializado na bolsa de Chicago).

Participe da nossa Comunidade no Telegram

Um estudo conduzido pela nossa equipe na PUC-Rio analisou esses contratos para entender quais protegeriam melhor o preço da gasolina e do etanol. Com base em dados semanais dos preços da gasolina A (pura) e etanol hidratado, entre 2015 a 2020, nossos achados sugerem que a melhor estratégia seria usar contratos tipo RBOB para gasolina e heating oil para o etanol. Essa proteção reduziria o efeito da volatilidade dos preços internacionais no mercado brasileiro. Para manter a atual política de preços da Petrobrás sem que a volatilidade do mercado internacional interfira no preço das bombas de combustível de forma, por vezes, acentuada é necessária uma efetiva política de gestão de risco de mercado.

Sobre esse artigo

Rafael Baptista Palazzi é doutorando em finanças na PUC-Rio.

Artigos

Os governadores e 2022

Por Adriano Oliveira*

O cientista político Fernando Abrúcio escreveu os Barões da Federação. Foi a sua dissertação de mestrado, a qual foi publicada em livro no ano de 1998. Abrúcio mostra a força dos governadores na política nacional e como é necessário que o presidente da República tenha constante diálogo com eles. Desde o governo Sarney, os presidentes da República mantêm interação com os governadores. Após a abertura democrática, governador sempre teve importância.

O presidente Bolsonaro quebrou a tradição. Para o atual mandatário da República, governador é mais uma peça a ser ignorada ou atacada. Apesar deste comportamento, são vários os chefes do Executivo estadual que tentam defender o presidente e insistir no diálogo com ele. As atitudes do presidente Bolsonaro sugerem que para ele, governador não tem importância.

Os governadores estão corretos ao enfrentarem o presidente Bolsonaro. Se o enfrentamento não ocorrer, a narrativa que predominará é a do presidente da República, qual seja: “Os governadores fecharam o comércio, não garantiram vacina para a população e o dinheiro enviado para a saúde sumiu”. Esta narrativa encontra respaldo na população. Se os governadores não cobrarem responsabilidade e atitude do presidente da República, a fama que conquistarão em parcela do eleitorado é de que são corruptos e incompetentes.

Ao enfrentar os governadores, o presidente Bolsonaro coloca os pretensos candidatos “bolsonaristas” aos governos estaduais na eleição de 2022 em situação complicada. Eles terão que explicar à população as razões que motivaram Jair Bolsonaro a negar as consequências da Covid-19 para a saúde pública e a economia. Nem todos os candidatos “bolsonaristas” aos governos estaduais receberão o apoio entusiasmado de Jair Bolsonaro. E os apoios serão assimétricos: o candidato terá que pedir votos para Bolsonaro. Mas Bolsonaro não tem a obrigação de pedir votos para ele.

O aumento da popularidade do governo Bolsonaro, algo que pode ocorrer, pois a sua impopularidade cresce, mas não tão rapidamente quanto às condições sanitária e econômica sugerem, tem o óbvio poder de atrair apoios para o presidente da República candidato à reeleição. A impopularidade gera efeito inverso. O enigma eleitoral para 2022 é: Qual será a popularidade do presidente Bolsonaro na vindoura eleição presidencial? Neste instante, a elaboração da resposta requer parcimônia.


Adriano Oliveira é Doutor em Ciência Política. Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Pernambuco.

Artigos

Uma reflexão sobre a pandemia

Por Marcelo Aragão*

Uma reflexão….

A temida segunda onda chegou, e veio de uma maneira muito mais agressiva do que poderíamos imaginar.

Uma nova Cepa, uma variante designada P1, originária da região Amazônica hoje assola o país e mete pânico em todo o mundo pela sua capacidade letal de transmissibilidade.

De todos os lados vemos relatos de desespero, de angústia, de medo, dos efeitos que esse novo momento está causando, tanto em matéria de saúde, provocando diariamente recordes de mortes e colapsando nosso sistema, como também no campo econômico, forçando mais uma vez as autoridades públicas a serem corajosas no que tange a decisões difíceis que vão desde a interrupção das atividades comerciais através de lockdowns, toques de recolher, entre outras nomenclaturas, até a reimplantação de medidas como auxílios emergenciais, subsídios fiscais, entre outros, que possam diminuir os efeitos catastróficos que são causados pela força de um problema tão cruel, mas que nos trará no futuro uma conta muito alta a se pagar.

Importante frisar que muito do que estamos passando se deve a uma completa acefalia existente nos desgovernos a que o povo brasileiro está sujeito em todas as esferas de poder.

Seja no âmbito federal, estadual ou municipal, passando pelos poderes legislativos e judiciário, em toda cadeia de agentes públicos do nosso país, o que se constata é uma outra realidade.

Milhares de pessoas sustentadas pelas tetas do poder, vivem numa espécie de bolha, avessa ao mundo real, onde um mundo de oportunidades e benesses impera, auxílio moradia, verbas indenizatórias, carros oficiais, passagens aéreas, aparelhos celulares, e muitos e muitos mais ….

Por outro lado, na dúvida entre a fome e a doença, uma certa coragem indisciplinada toma conta do indivíduo comum, que encara a doença do Coronavírus como qualquer outra que durante toda a sua vida o desafiou, e que bem ou mal ele sempre ou quase sempre venceu, óbvio a base de suor, sofrimento e muita dor.

Ele nunca foi protegido pelo estado, como poderá saber o que é se proteger? Como justificar o “fica em casa” pra alguém que desde quando se conhece por gente, desde pequenininho, sempre lutou na manhã pelo prato de comida do almoço?

Nossos agentes públicos, sempre incompententes, frios e omissos, dão de ombros a essa realidade cruel, sórdida, dura, fecham os olhos a um sofrimento que vem de longe, mas inertes a situação, preferem fazer política de toda ordem, botando a ciência, a coerência, a gestão, o planejamento e a humanidade em último plano.

A realização das eleições no ano de 2020 é uma prova cabal de que para esses senhores nada é mais importante que a política e o poder.

Não é de hoje que nosso sistema de saúde vive em colapso, notícias de que o atendimento nos hospitais públicos do Brasil vem sofrendo um sucateamento de toda a espécie é recorrente, a muito não se vê um atendimento digno, de todos os cantos chovem denúncias de superfaturamento, desvio de verbas em hospitais, clínicas, unidades de pronto atendimento, compras viciadas, licitações fraudulentas, entre outros.

Se tínhamos um legado a comemorar por conta da pandemia, era que em pouco tempo, durante o pico da primeira onda no Brasil, em meados de maio, junho e julho, de uma maneira louvável, multiplicamos o número de leitos para atendimento a população em todos os estados da federação, como num passe de mágica, óbvio, a base de muita corrupção em virtude do estado de calamidade pública, milhares de novos leitos ambulatoriais e de uti, pipocaram nas mais diversas redes de assistência pública.

Hoje gráficos mostram todo o país em vermelho, os mesmos gráficos que estavam em azul nos meses de pico da pandemia.

A imprensa esquece porém de mostrar os milhares de leitos que foram fechados irresponsavelmente pelos prefeitos, governadores e presidente.
Não mostram o corte de verba a que fomos sujeitos no Ministério da Saúde no orçamento federal de 2021.

Constroem uma teoria falsa de que agora o momento é o pior já enfrentado na pandemia, porém esquecem de mostrar em números absolutos que a necessidade é muito menor que nos meses de maio, junho e julho de 2020, e a causa real foi a atitude irresponsável de fechar os leitos, desafiando a ciência que já mostrava evidências de uma segunda onda existir.

Provamos que somos capazes e que dinheiro existe, mas da mesma forma que foram implantados novos leitos em tempo recorde, evaporaram, importante frisar aqui que não me refiro aos hospitais de campanha, outra magnífica indústria de corrupção desenvolvida e aprimorada em nosso país.

Falo dos leitos construídos e aparelhados e completamente desmobilizados a partir de setembro em todos os estados da federação, com a dita teoria de que o pior já tinha passado e não justificava a manutenção de um infraestrutura tão cara, que não teria por quem ser usada, ou seja, de uma hora pra outra, esgotaram-se as filas de toda a espécie em nossos hospitais públicos.

Quem a anos espera por um transplante, uma cirurgia de coração, uma correção ortopédica, uma consulta, todos foram prontamente atendidos, dando aos nossos governantes a autoridade de decidir acabar com um legado que poderia ser incorporado ao nosso já tão sofrido sistema único de saúde.

Assistimos diariamente a uma prova da falta de preparo dos nossos escolhidos para administrar nosso destino, pessoas totalmente incapacitadas, onde a prática da administração é sempre remediar, nunca planejar.

A todo momento vimos falas de que estamos em estado de guerra, porém vimos enfrentando essa batalha a mais de um ano, a desculpa de que o inimigo era desconhecido já não cabe mais.

Um presidente irracional, a beira da loucura esbraveja que a vacina não serve, seguido por um tipo de gente inescrupulosa que ainda defende o negacionismo e alimenta uma face desequilibrada de uma pessoa que não podia estar ocupando o mais alto cargo da nossa nação.

No mundo globalizado que vivemos, a informação é uma importante arma para construir diálogo, proliferar exemplo, compartilhar conhecimento.

Exemplos de países que enfrentaram de frente, com coragem, respeito e planejamento a questão, estão aí pra serem seguidos e copiados.

Tanto países ricos e pobres, com grande população ou não, mostram eficiência em modelos que até agora aqui não foram realizados.

Nos EUA, apesar de um antigo presidente irresponsável e falastrão, aquela administração não se negou a deixar comprada mais de 300 milhões de doses para imunizar sua população logo no primeiro momento.

No Reino Unido, além da corrida para a vacinação, medidas de socorro a economia produtiva, de maneira séria e equilibrada, associada a medidas restrição e distanciamento social, com mensagens educativas, foram determinantes pra uma expectativa mais positiva de que o pior momento já passou.

No Chile, apesar de toda uma crise política recente, o governo não se furtou a desde o primeiro momento correr de maneira clara e objetiva para adquirir os imunizantes necessários.

Israel, por sua vez, tornou-se exemplo para o mundo.

Aqui, a política está sendo a protagonista da pandemia, a ciência fica relegada ao fim da fila, sem escrúpulos, presidente, governadores, prefeitos, ministros da suprema corte, deputados, senadores, todos buscam em primeiro lugar holofotes, no ímpeto de terem destaque na mídia.

A imprensa também não vem exercendo seu papel de maneira digna. Outra grande oportunidade perdida. Uns como outros, decidiram por um lado, assistimos teorias sobre o mesmo assunto, sendo defendidas de formas completamente diferente, ou seja, a subjetividade e a opinião estão pautadas na conveniência ou na determinação editorial do grupo de comunicação.

O que fica em resumo, é uma completa sensação de impotência, medo que nos assombra diuturnamente, estamos sem rumo, sem chão, jogados a sorte, as orações, descrentes e com a esperança de que por uma obra divina, tudo melhore.

Marcelo Aragão é advogado, empresário e produtor de eventos a mais de 25 anos.