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O “monstro sist” que aplaudiram agora assusta quem o criou

Na música de Raul Seixas, o sistema que devora seus próprios criadores parecia uma metáfora. No Brasil de hoje, virou debate institucional.

Neste sábado, resolvi fazer uma coisa que às vezes ajuda a organizar as ideias: revirar as playlists. Entre uma música e outra, parei em Raul Seixas. E quando começou a tocar As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor, tive aquela sensação que muita gente já teve ao ouvir Raulzito: a de que ele parecia estar falando do Brasil de hoje.

Há músicas que envelhecem. Outras viram relíquias de época. Mas existem algumas poucas que parecem ganhar novas camadas com o passar dos anos. “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor” é uma dessas.

Logo no início, Raul manda uma das frases mais fortes da música brasileira:

“Eles já são carrascos e vítimas do próprio mecanismo que criaram.”

Naquele contexto dos anos 70, em pleno Brasil da Ditadura Militar no Brasil, a crítica era direcionada ao que ele chamava de “monstro sist”, o sistema. Não apenas governos, mas toda a engrenagem de poder que envolve instituições, burocracias, interesses e narrativas.

Raul tinha uma percepção rara: sistemas de poder não controlam apenas quem está fora deles. Muitas vezes acabam também aprisionando quem os criou.

Essa percepção ajuda a entender um fenômeno recente no debate institucional brasileiro.

Nos últimos anos, parte da imprensa e de setores políticos apoiou medidas consideradas excepcionais adotadas no âmbito do Supremo Tribunal Federal, especialmente durante momentos de forte tensão política. Instrumentos jurídicos incomuns passaram a ser defendidos como respostas necessárias diante de ataques às instituições e à própria democracia.

Naquele momento, a justificativa era clara: o país enfrentava um período de crise política profunda, e era preciso reagir.

Mas a política (e as instituições) têm uma característica conhecida na teoria política: exceções criadas em momentos de crise tendem a permanecer mesmo depois que a crise passa.

Com o tempo, mecanismos extraordinários podem se tornar parte do funcionamento normal das instituições. E, uma vez incorporados, raramente são desmontados com facilidade.

Nos últimos meses, alguns episódios começaram a provocar questionamentos justamente de setores da imprensa que antes defendiam determinadas medidas.

O chamado Caso Master, que envolve investigações relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, deu continuidade a uma discussão recente sobre limites institucionais e alcance das decisões judiciais. Em outro episódio recente, surgiram críticas diante de tentativas de constranger o trabalho da jornalista Malu Gaspar, conhecida por reportagens investigativas publicadas em O Globo. Houve ainda repercussão em torno da revelação de um planejamento de atentado contra o colunista Lauro Jardim, também do mesmo grupo de comunicação.

De repente, começaram a surgir, em editoriais e colunas, cobranças por limites institucionais mais claros.

O detalhe curioso é que esse movimento ganhou força justamente após o marco político que muitos consideravam necessário para “encerrar” a crise institucional iniciada anos atrás: a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Para muitos atores do sistema político e institucional, aquele momento representaria o ponto final de um ciclo.

O problema é que sistemas institucionais não funcionam como botões que podem ser desligados depois de cumprida uma missão.

Quando determinados mecanismos passam a existir, eles passam a integrar a lógica de funcionamento do próprio sistema. E sistemas têm uma tendência natural à autopreservação.

Raul resumiu isso de forma brutalmente simples:

“O monstro sist é retado
e tá doido pra transar comigo.”

A frase, irreverente como só Raul saberia escrever, descreve bem o comportamento das estruturas de poder: elas absorvem todos os atores que orbitam ao seu redor: políticos, instituições, imprensa e sociedade.

E às vezes acabam operando para preservar a si mesmas.

Talvez por isso Raul também ironize um fenômeno que parece atravessar décadas:

“Hoje a gente já nem sabe
de que lado estão certos cabeludos.”

Nos anos 70, os “cabeludos” eram os jovens da contracultura, os artistas, os rebeldes culturais. Raul sugeria que até a rebeldia podia virar estereótipo.

Os papéis se confundem.

Quem antes aplaudia determinadas medidas passa a cobrar limites.
Quem antes criticava instituições passa a defendê-las.

No meio desse jogo, o sistema continua funcionando.

Talvez seja justamente por isso que Raul encerra aquela reflexão com uma frase que atravessa gerações:

“Aos onze anos de idade eu já desconfiava da verdade absoluta.”

Talvez essa seja uma das lições mais atuais do velho Raulzito: sistemas de poder, sejam eles políticos, institucionais ou narrativos, sempre merecem vigilância crítica.

Porque, como ele próprio cantou, quem cria determinados mecanismos pode acabar, um dia, convivendo com as consequências deles.

E às vezes a melhor forma de entender isso não está em discursos ou tratados de teoria política.

Está em uma música de cinquenta anos atrás.

Um excelente domingo, fique com Raul Seixas:

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