O avanço para tirar o ex-senador Roberto Rocha do comando do PSDB do Maranhão acontece no exato momento em que ele aparece como um dos nomes mais competitivos da disputa ao Senado em 2026, sem vínculo formal com nenhum dos grandes blocos em guerra no estado. Na pesquisa Paraná Pesquisas divulgada neste mês, Rocha tem 27,8% no cenário estimulado ao Senado com Carlos Brandão na disputa, atrás apenas do próprio governador, que marca 34,6%. Num segundo cenário, sem Brandão e com Roseana Sarney, o ex-senador sobe para 29,2% e assume a liderança isolada.
O próprio Roberto Rocha deu a sua versão do movimento em declaração ao jornalista Marco D’Eça. Segundo ele, a operação para lhe tirar o PSDB tem motivação diretamente eleitoral: impedir que um candidato competitivo, de direita e fora das alianças centrais siga solto na corrida. Na fala, o ex-senador aponta os dinistas como interessados em abortar sua candidatura antes que ela ganhe estrutura partidária.
A leitura política não é difícil. Partido é tempo, palanque, nominata, capilaridade, negociação e sinal de viabilidade. Um candidato que pontua perto de 30% sem estar ancorado num grupo robusto passa a ser problema para quem já está no tabuleiro. Os números mostram exatamente isso: Roberto Rocha não é coadjuvante. Ele está no bloco da frente e, em um dos cenários, lidera a disputa.
É aí que entra Juscelino Filho. Deputado federal do União Brasil, ele é apontado como o nome que deve assumir o PSDB no Maranhão, numa mudança articulada poucas semanas depois de Roberto ter voltado ao comando tucano. A movimentação foi registrada na imprensa política maranhense e ocorre sob o argumento de fortalecer a bancada federal tucana em meio ao risco da cláusula de barreira. Ao mesmo tempo, Juscelino é de fato filiado ao União Brasil e continua exercendo mandato de deputado federal pelo Maranhão.
No plano local, a troca de comando tem peso ainda maior porque Juscelino circula com desenvoltura entre setores do campo governista e mantém trânsito com lideranças que disputam o Senado. Há registro recente de aproximação com o presidente Lula e inserção em agendas do grupo governista nacional, o que reforça sua interlocução com o campo hoje associado aos dinistas e aliados.
Mas há um detalhe político ainda mais sensível: Weverton Rocha é hoje um dos interessados diretos em esvaziar qualquer candidatura competitiva que possa ameaçar sua permanência entre os dois primeiros colocados para o Senado. E a pesquisa mostra por quê. No cenário com Brandão, Weverton aparece com 20,5%, bem atrás de Roberto Rocha, que tem 27,8%. No cenário com Roseana, Weverton marca 21,7%, enquanto Roberto lidera com 29,2%. Em ambos os quadros, Rocha está à frente do pedetista.
Ou seja: retirar Roberto Rocha de um partido com envergadura nacional não é apenas uma mexida administrativa. É uma intervenção no equilíbrio da disputa. É tentar impor dificuldade estrutural a um concorrente que, pelos números, já demonstrou fôlego eleitoral.
E é justamente aí que a história ganha uma camada de ironia política.
Em 2020, o mesmo Roberto Rocha participou de um movimento semelhante dentro do PSDB de São Luís. Naquele momento, o deputado estadual Wellington do Curso passou todo o período pré-eleitoral como pré-candidato tucano à prefeitura, pontuando nas pesquisas e trabalhando sua viabilidade, tudo com autorização do ex-senador. No fim do processo, porém, o PSDB recuou da candidatura própria e declarou apoio a Eduardo Braide. Wellington reclamou publicamente de ter sido traído após receber a palavra de que seria o candidato do partido.
A diferença é que, agora, Roberto Rocha aparece no papel de vítima do mesmo método que ajudou a normalizar: deixar um nome crescer, medir sua utilidade e, na hora decisiva, tomar-lhe a estrutura partidária em nome de um cálculo maior.
Os dados da Paraná ajudam a explicar a pressa dos adversários. No voto espontâneo para o Senado, quando o eleitor responde sem receber lista de nomes, Roberto Rocha já aparece com 3,8%, atrás apenas de Carlos Brandão, com 5,8%, e à frente de Weverton, que tem 2,5%. Embora o número de indecisos ainda seja muito alto, o dado espontâneo sugere presença real de lembrança no eleitorado.
No cenário estimulado principal, Rocha também mostra força em nichos importantes. Ele vai a 32,7% entre homens, marca 32,1% entre eleitores com ensino superior e chega a 31,1% na faixa de 45 a 59 anos. No cenário alternativo, sem Brandão, continua forte, com 34,2% entre homens e 39,5% entre os eleitores com 60 anos ou mais, além de manter vantagem geral sobre Roseana e Weverton.
É esse conjunto que torna a operação politicamente compreensível, ainda que negada pelos seus operadores. Um candidato competitivo, sem amarras claras, com recall e espaço para crescer, vira problema para quem depende de disputa controlada. Se não dá para trazê-lo para o bloco, a alternativa é reduzir sua estrutura.
Roberto Rocha pode até ter razão ao dizer que tentam tirá-lo da disputa porque é competitivo. Mas também é verdade que ele conhece esse roteiro por dentro. E conhece porque já o aplicou quando lhe convinha.
A pesquisa Paraná Pesquisas ouviu 1.300 eleitores em 52 municípios do Maranhão, entre 5 e 8 de março de 2026, com margem de erro de 2,8 pontos percentuais, 95% de confiança e registro no TSE sob o número MA-00634/2026.
