A história política ensina, com insistência quase pedagógica, que os regimes autoritários raramente nascem de rupturas bruscas. Eles germinam, quase sempre, sob aplausos, embalados por popularidade, eficiência aparente e uma narrativa cuidadosamente construída de salvador da pátria. Ditadores não surgem, em regra, anunciando-se como tais; formam-se aos poucos, no silêncio das instituições enfraquecidas e na naturalização do poder excessivamente concentrado.
É sob essa lente histórica, e não sob paixões partidárias, que se impõe um alerta à população de São Luís diante do modelo de governança adotado pelo prefeito Eduardo Braide.
O traço mais preocupante de sua gestão não está em um ato isolado, mas no padrão, a centralização extrema das decisões, o esvaziamento político das secretarias e a personalização quase absoluta do poder executivo municipal.
Relatos recorrentes indicam que o prefeito não dialoga de forma institucionalizada com seus próprios secretários, decide sozinho os rumos da administração e não compartilha responsabilidades quando crises se instalam. O caso da Secretaria de Transporte é emblemático, sete mudanças sucessivas revelam não apenas instabilidade administrativa, mas a incapacidade, ou a recusa, de construir uma política pública coletiva, técnica e duradoura. O mesmo se observa na área da Cultura, marcada por trocas traumáticas, denúncias e escândalos que fragilizaram um setor historicamente sensível e simbólico para a cidade.
Não menos reveladora é a figura quase inexistente do secretário de Governo, personagem desconhecido do debate público, mas que, paradoxalmente, ocupa interinamente a Comunicação. Tal arranjo não parece casual. Ao contrário, revela um método, evitar a presença de quadros fortes, autônomos, com voz própria, capazes de dividir protagonismo e poder decisório. Em seu lugar, instala-se o vácuo convenientemente preenchido pelo próprio prefeito.
O resultado é uma administração em que o prefeito é tudo, é o formulador exclusivo das políticas, o comunicador oficial, o mestre de cerimônias dos eventos públicos, o garoto-propaganda nas redes sociais, o porta-voz único do governo e, na prática, o secretário informal de todas as pastas. Secretários tornam-se figurantes, a máquina pública, extensão da vontade individual.
Esse fenômeno não é novo. Benito Mussolini, na Itália, iniciou sua ascensão sob forte apoio popular, apresentando-se como gestor eficiente e inimigo do “caos político”. Hugo Chávez, na Venezuela, concentrou progressivamente funções, minando a autonomia institucional em nome de uma relação direta com o povo. Getúlio Vargas, em seu momento autoritário, dissolveu mediações políticas sob o argumento de governar “em nome da nação”. Em todos esses casos, o roteiro foi semelhante: popularidade elevada, comunicação direta, enfraquecimento dos auxiliares e desprezo gradual pelos freios institucionais.
A ciência política é clara, popularidade não é antídoto contra o autoritarismo, ao contrário, pode ser seu combustível mais perigoso. Quanto maior a aprovação acrítica, menor a vigilância social. E quanto menor a vigilância, maior a tentação de governar sem limites.
Não se trata de afirmar que São Luís vive hoje uma ditadura, isso seria impreciso e irresponsável. Trata-se de algo mais sério e mais sutil, identificar sinais, padrões de comportamento e escolhas administrativas que, se normalizadas, abrem caminho para práticas incompatíveis com a democracia republicana.
Democracia não é apenas o voto. É o diálogo, a descentralização do poder, o fortalecimento das instituições, a pluralidade de vozes e a responsabilidade compartilhada. Quando tudo passa por um só, quando ninguém fala senão o chefe, quando auxiliares são descartáveis e a máquina pública gira em torno de uma única imagem, o risco não é hipotético, é histórico.
Por isso, o chamado é simples e urgente, acordem. Questionar não é torcer contra a cidade, fiscalizar não é odiar um governante, alertar não é exagerar. É exercer cidadania.
A história demonstra, com dureza, que os piores regimes começaram exatamente quando a maioria achou que não havia com o que se preocupar. São Luís merece mais do que um governo personalista (e agora ele quer o Maranhão). Merece instituições fortes, gestão compartilhada e um poder que saiba, sobretudo, reconhecer limites.
