O vice-governador Felipe Camarão (PT) decidiu ocupar um lugar específico no tabuleiro sucessório do Maranhão: o de peça central que não se submete à pressa nem à imposição de um único caminho. Ao manter vivo o projeto de disputar o governo do Estado, especialmente ao lado do campo dinista, Camarão não apenas reafirma legitimidade política, como também atua de forma estratégica em um cenário marcado por indefinições, interesses cruzados e cálculos nacionais.
Nesta terça-feira, 6 de janeiro, Camarão publicou um vídeo aparentemente didático sobre o calendário eleitoral. O conteúdo, voltado a estudantes de Direito e curiosos do processo eleitoral, trazia uma explicação técnica sobre o calendário eleitoral, entre eles o prazo de desincompatibilização. Mas o recado político estava ali, ainda que de forma sutil: o vice-governador fez questão de lembrar que ocupantes do cargo de vice não precisam renunciar para disputar eleições. Um detalhe jurídico com forte peso político.
Na prática, Camarão sinaliza que segue no jogo com todas as cartas na mão. Sem abrir mão do cargo, ele se mantém apto a diferentes cenários: pode ser candidato ao governo, ao Senado, compor novamente como vice, disputar uma vaga proporcional ou até atuar como coordenador político de um projeto majoritário antagônico ao de Brandão. Não se trata de indecisão, mas de flexibilidade.
O projeto ao governo existe e não é retórico.
Camarão conta com respaldo de setores organizados da esquerda, sobretudo do espólio dinista, que o enxergam como herdeiro natural de um ciclo político iniciado com Flávio Dino. Manter essa candidatura viva é, inclusive, uma forma de pressionar o tabuleiro e evitar que a sucessão seja resolvida sem a participação desse campo.
Ainda assim, o caminho não é simples. O PT maranhense está longe de ser homogêneo. Ao mesmo tempo em que abriga quadros alinhados a Camarão, o partido mantém setores que preferem a continuidade da aliança com o governador Carlos Brandão. Não por acaso, o PT segue ocupando espaços relevantes na gestão estadual, como no caso de Criciele Muniz, presidente do Iema. O partido, como de costume, evita rupturas enquanto ainda detém poder institucional.
No plano nacional, as variáveis são ainda mais determinantes. A direção do PT já deixou claro, por meio de declarações públicas do presidente Edinho Silva e de José Dirceu, que a prioridade do partido em 2026 não é a conquista de governos estaduais, mas o fortalecimento da bancada no Senado. A lógica é simples: Lula governa com mais segurança com maioria no Congresso do que com vitórias simbólicas nos estados.
Esse fator nacional relativiza qualquer projeto local. O PT precisará ponderar alianças amplas, evitar conflitos desnecessários e preservar relações estratégicas. Brandão, embora não seja petista, integra esse campo de alianças. E até mesmo alternativas como o PSD, que no Maranhão abriga o prefeito de São Luís, Eduardo Braide (potencial candidato ao governo) surgem, entre setores dinistas, como uma tentativa de derrotar Brandão sem isolar o partido do arranjo nacional liderado pelo Planalto.
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Nesse ambiente, o PT tende a fazer o que sempre fez: optar pelo caminho mais fácil, menos traumático e mais funcional ao projeto nacional. Não necessariamente o mais ideológico, nem o mais ousado.
É nesse ponto que Felipe Camarão surge como coringa do partido. Pode até não ser o escolhido para liderar uma chapa ao governo, mas dificilmente ficará fora do desenho final.
