A proposta que Eduardo Braide enviou à Câmara nesta quarta (03), não é apenas um pedido de revogação de uma lei incômoda. É um teste de caráter institucional. Depois de perder no Tribunal de Justiça, depois de recorrer e perder de novo, depois de ignorar por meses a pressão de cerca de 400 auditores e controladores que buscam valorização salarial desde o início do ano, o prefeito aparece oferecendo aquilo que nunca deveria ter sido moeda de troca: o pagamento das emendas impositivas.
Se os vereadores aceitarem, deixam marcado na testa que a Câmara é o balcão de negócios que Braide sempre denunciou ser. Porque o que ele propõe não é diálogo. É chantagem silenciosa. A mensagem é clara: revoguem a lei que me prejudica e eu libero o dinheiro que sou obrigado a liberar. O prefeito tenta transformar suas obrigações legais em concessões políticas. E tenta fazer isso após meses negando qualquer possibilidade de sentar com o Parlamento.
É simbólico que Braide não tenha procurado o presidente da Casa, Paulo Victor, para conversar diretamente. Preferiu mandar interlocutores. Não quer ser visto com o presidente da Câmara. Não quer a foto, por motivos óbvios. Não quer assumir o desgaste de sentar à mesa com um presidente malvisto como Paulo Victor. E, principalmente, não quer ser cobrado publicamente por um acordo que, pela própria natureza, parece fadado a ser descumprido. Ele repete a estratégia de 2021, 2022, 2023 e 2024: promete quando está acuado e rompe quando o vento político muda.
A Câmara, ironicamente, vive um momento inédito na relação com Braide. Venceu disputas jurídicas importantes contra o prefeito no TJ. Mostrou força institucional. Provou que o Legislativo tem autonomia e não funciona como extensão do gabinete do Executivo. E agora, diante do primeiro teste real, corre o risco de retroceder justamente quando deveria se impor como instituição. Porque o que está em jogo não é apenas o reajuste de salário de Braide. É o futuro dos 400 servidores que lutam para destravar uma política salarial engessada há quase vinte anos. Essa pauta já foi usada pelos vereadores para pressionar a liberação de emendas. Hoje, porém, ela ultrapassa os interesses dos vereadores.
Cabe a Paulo Victor segurar o fio institucional. É seu papel garantir que as emendas impositivas sejam pagas sem depender de acordo político. É seu papel proteger a integridade da Câmara. É seu papel lembrar aos vereadores que a presidência não se dobra ao Executivo. E, principalmente, é seu papel impedir que o Legislativo vire moeda de troca para salvar o próprio prefeito de si mesmo.
Mas, pela história recente, é difícil esperar firmeza coletiva. Muitos vereadores já sinalizam que podem aceitar a proposta. Não porque ela seja justa, mas porque o acordo está sendo conduzido por Joel, líder do governo e bem relacionado com seus pares. Quem topar, sabe dos riscos. Sabe que o prefeito tem um histórico de não cumprir acordos, especialmente quando envolvem compromissos assumidos debaixo de pressão e por debaixo dos panos. Sabe que a promessa de hoje será a frustração de amanhã.
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No fundo, o que Braide oferece é a oportunidade de que os vereadores comprem uma briga que não é deles, livrem o prefeito de um desgaste que ele mesmo produziu e, de quebra, reforcem a impressão pública de que tudo continua igual em São Luís. Que o prefeito governa sem diálogo. Que a Câmara negocia suas prerrogativas. E que os servidores ficam novamente à margem de uma disputa que não deveria existir.
Se a Câmara aceitar, assume para a cidade que perdeu sua função. Se recusar, marca uma virada institucional rara em São Luís. A escolha está sobre a mesa. E nenhum dos envolvidos poderá alegar surpresa sobre as consequências.
