Hoje, em poucos cliques, qualquer pessoa pode criar uma página ou um perfil que parece ser de um veículo de imprensa.
A linha entre notícia, especulação e golpe fica tênue, e o leitor é colocado no centro de uma máquina de suspeitas que assusta e confunde. Narrativas parciais, com recortes seletivos e informações incompletas, têm o poder de transformar suposições em dúvidas e certezas imaginárias.
É o efeito daquilo que chamamos, aqui, de máquina do medo: um ciclo perigoso de ansiedade, pressão e desinformação. Essa máquina deixa refém tanto o público quanto os personagens da “notícia”.
Nos conectamos este cenário ao caso recente do funcionário da TV Globo Rio.
Na última terça-feira (30), Júlio César de Oliveira Silva Rodrigues foi preso em flagrante por extorsão após se passar por repórter da TV e tentar chantagear o deputado estadual Alexandre Knoploch (PL) no Rio de Janeiro. Rodrigues alegou possuir uma reportagem comprometedora contra o parlamentar e exigiu R$ 10 mil para não divulgá-la.
O deputado, já ciente de tentativas semelhantes contra outros colegas, confrontou o impostor em seu gabinete, resultando na prisão do golpista. O flagrante contou com o apoio da Rede Globo, e o funcionário foi afastado e posteriormente demitido.
Aqui está o grande risco em nosso ofício de bem informar. Em questão de minutos, é possível criar a ilusão de credibilidade e manipular a opinião pública ou extorquir pessoas com base em informação falsa. Se a desinformação já é perigosa por si só, a combinação com golpes e a facilidade de disseminação digital torna o cenário ainda mais preocupante.
Cabe ao jornalismo responsável exercer seu papel de filtro, apresentando contexto, checando dados e distinguindo fato de invenção, mesmo diante da pressão das redes sociais e do imediatismo da audiência.
A Carta Política reafirma seu compromisso com a liberdade de expressão e de imprensa, sem censura prévia alguma. E aí concordamos com Dom Pedro II, que acreditava que “a imprensa se combate com imprensa”, ou seja, não com censura.
Mas na liberdade há responsabilidades, já previstas em lei. Cabe ao leitor, ouvinte ou espectador, ter um tom crítico ao receber a informação, para não cair na vala comum da manipulação.
O único medo que o jornalismo deve provocar nos que andam à margem da lei é de que ele desnude fatos. Jornalismo é tudo aquilo que não querem que publique; todo o contrário é publicidade. Porém, essa máxima atribuída a William Randolph Hearst não é um cheque em branco para inventar fatos, manipular narrativas ou lucrar com histórias forjadas.
