Por Mylla Sampaio

Na semana em que um policial militar assassinou sua ex-companheira por não ter suportado vê-la com outro homem e muitas pessoas advogaram em sua defesa, mostrando o nível civilizatório baixíssimo em que ainda se encontram, é importante destacar algumas coisas nessa barbárie. Três pontos, mais especificamente considerados, ilustram a sociedade violenta que integramos e a confirmação do que estudiosos de gênero sustentam.

Em primeiro lugar, a confirmação do que Ruth Benedict afirmou ser uma civilização de culpa, especialmente no que se refere ao gênero feminino, que é treinado para que se sinta culpado. Se na mitologia grega Pandora é a responsável por abrir uma caixa e lançar sobre o mundo todas as mazelas conhecidas, no cristianismo Eva é responsabilizada pela expulsão de Adão do paraíso. Para muitos a vítima mereceu o destino que teve e é a única culpada pela tragédia. Impossível não lembrar do caso ocorrido há algumas décadas, onde um nordestino marcou com ferro em brasa – instrumento utilizado para marcar gado – o corpo de sua companheira com a sigla “MGSM”, que significa “mulher galheira só morta”, por meramente suspeitar de infidelidade.

Em segundo lugar, o comportamento do soldado Tiago de Jesus, que utilizou suas redes sociais para justificar o crime de seu colega de corporação, com comentários absurdos e ameaçadores de que se outras mulheres tivessem o mesmo comportamento da vítima, teriam o mesmo destino. O que demonstra ser verdade que o patriarcado nada mais é que um pacto masculino para garantir a opressão das mulheres, e, ainda, o que defende Saffioti de que o elemento nuclear do patriarcado é o controle da sexualidade feminina a fim de assegurar a fidelidade das mulheres aos homens. Oras, a discussão orbita no comportamento de uma mulher que já não tinha mais um relacionamento com o homicida e que decidiu exercer livremente sua sexualidade, o que não foi tolerado por quem acreditava ser o seu proprietário. E mesmo que ainda existisse um vínculo entre ambos, a infidelidade não é um crime, no máximo é o descumprimento do contrato que o matrimônio significa. É nessa constatação que existe uma desproporção absurda entre um assassinato e a inobservância a um pacto, o que só se justifica pelo comportamento animalesco masculino.

Por fim, com a quantidade de denúncias recebidas sobre o policial Tiago de Jesus e de seu comportamento violento e ameaçador em diversas situações, é possível visualizar com bastante clareza que uma parte dos agentes de segurança pública maranhenses sofre da síndrome de pequeno poder. São meros soldados e estão na base hierárquica de suas corporações, mas manuseando uma arma sentem-se muito poderosos. Esse e outros problemas psicológicos estão mais presentes nesses servidores do que se imagina, conforme pesquisa que expôs que 41,7% dos agentes de segurança pública que já agiram impulsivamente em alguma ocorrência, 88,3% se sentiam emocionalmente desgastados ao final de um dia de trabalho, 62,5% afirmaram que se sentiam agressivos durante o exercício do ofício e 20,8% já haviam pensado em suicídio.

No meio dessa problemática, detectou-se que a Lei Estadual nº 8.596 de 2009 determinava que o exame psicotécnico realizado em uma das fases para ingresso em carreiras integrantes do sistema de segurança pública maranhense não era eliminatório, sendo mera formalidade. O deputado estadual Dr. Yglésio protocolou proposição alterando o texto, tornando esse exame eliminatório desde que siga critérios objetivos devidamente especificados no edital do certame. Com isso, espera-se que exista um maior rigor com a saúde mental dos integrantes das forças de segurança pública, pois é evidente que muitos são ameaças à vida e integridade de inocentes.

Mylla Sampaio é Mestranda em Direito e Instituições do Sistema de Justiça na Universidade Federal do Maranhão.